Agência Internacional de Notícias AhlulBayt (ABNA): Por ocasião do Dia de Homenagem a Abu Rayhan al-Biruni, celebrado em 13 de Shahrivar no calendário iraniano, revisitar a trajetória desse grande cientista iraniano permite também lançar luz sobre um aspecto menos conhecido de sua época: a relação entre as mulheres e o conhecimento científico.
Em uma época em que muitas sociedades consideravam a mulher uma figura secundária e limitada ao espaço doméstico, a civilização iraniano-islâmica desenvolveu, sob a influência dos ensinamentos islâmicos e da tradição cultural iraniana, uma concepção que reconhecia valor especial à busca do conhecimento.
Um dos episódios mais significativos relacionados a essa questão envolve Abu Rayhan al-Biruni e uma mulher chamada Rayhana.
Um livro de astronomia escrito para uma mulher
Entre os séculos IV e V da Hégira, Abu Rayhan al-Biruni escreveu em persa uma de suas obras mais importantes, Al-Tafhim li-Awa'il Sina'at al-Tanjim, dedicada ao ensino dos fundamentos da astronomia.
O que torna essa obra particularmente significativa não é apenas seu conteúdo científico e seu método pedagógico, mas também a circunstância de sua elaboração.
Segundo registros históricos, a obra foi escrita a pedido de Rayhana bint al-Husayn al-Khwarizmi, uma mulher interessada pelo conhecimento científico.
Na introdução da obra, al-Biruni afirma que escreveu esse trabalho para Rayhana, que havia solicitado a obra. O registro é significativo porque mostra uma mulher buscando conhecimento especializado em uma época muito distante dos debates contemporâneos sobre educação feminina.
Al-Tafhim é considerado um dos mais antigos textos existentes em língua persa sobre matemática e astronomia. A obra apresenta conceitos de geometria, aritmética, astronomia e astrologia e utiliza um método de perguntas e respostas, tornando conteúdos complexos mais acessíveis ao estudante.
A identidade de Rayhana, entretanto, é objeto de debate entre pesquisadores. Alguns estudiosos consideram que ela foi uma personagem histórica real. Outros levantam a possibilidade de que tenha sido uma personagem simbólica criada por al-Biruni para representar uma mulher interessada em ciência e, dessa forma, questionar os preconceitos existentes contra a educação feminina.
Independentemente dessa discussão, o episódio possui um significado relevante: uma mulher aparece como destinatária de uma obra científica de grande importância, sendo apresentada como alguém capaz e interessada em aprender astronomia e matemática.
Mulheres e conhecimento na tradição islâmica
O lugar da mulher no conhecimento também pode ser observado em diferentes períodos da história islâmica.
O Islã valorizou desde seus primeiros tempos a busca pelo conhecimento e registrou a participação de mulheres em diferentes campos intelectuais. Ao longo da história, mulheres atuaram como transmissoras de hadith, juristas, estudiosas, poetisas e especialistas em diferentes áreas do saber.
Entre os exemplos apresentados pelos estudiosos está a Hazrat Zaynab (a.s.), conhecida como Aqila Bani Hashim, reconhecida por seu conhecimento e por sua capacidade de ensinar e transmitir conhecimentos religiosos.
Também é mencionada Sukayna, filha do Imam Hussein (a.s.), associada às atividades intelectuais e à transmissão de conhecimento nos primeiros séculos do Islã.
Esses exemplos fazem parte de uma tradição mais ampla na qual a busca pelo conhecimento não era apresentada exclusivamente como uma atividade masculina.
O encontro entre a tradição iraniana e o Islã
A valorização da mulher na civilização iraniano-islâmica também pode ser compreendida a partir do encontro entre a herança cultural iraniana e os ensinamentos islâmicos.
A antiga cultura iraniana atribuía grande importância à família e à figura da mulher e da mãe. Com a chegada do Islã, elementos dessa tradição cultural passaram a conviver com os princípios islâmicos, criando um ambiente no qual mulheres participaram de diferentes campos da vida intelectual, cultural e social.
Ao longo dos séculos, mulheres estudiosas, poetisas e intelectuais surgiram em diferentes regiões do mundo islâmico, demonstrando que a produção de conhecimento não esteve restrita aos homens.
Uma comparação com o Ocidente de sua época
A análise histórica também exige observar que as concepções sobre a mulher variaram significativamente entre diferentes sociedades e períodos.
Na Grécia Antiga, por exemplo, pensadores como Aristóteles apresentaram concepções hierárquicas sobre a relação entre homens e mulheres. Na Atenas clássica, as mulheres não possuíam os mesmos direitos políticos dos homens e estavam excluídas de importantes esferas da vida pública.
Séculos depois, durante a formação do pensamento político moderno e do Iluminismo europeu, filósofos como Hobbes, Locke e Rousseau continuaram apresentando concepções diferentes sobre o papel da mulher na família e na sociedade.
Rousseau, por exemplo, defendia uma educação feminina fortemente orientada para as funções domésticas e familiares. Essas concepções demonstram que a ideia contemporânea de igualdade entre homens e mulheres não surgiu de forma repentina, mas foi resultado de um longo processo histórico.
Por isso, a história da mulher não pode ser reduzida a uma narrativa simples na qual uma civilização aparece exclusivamente como libertadora e outra como permanentemente opressora. A realidade histórica é mais complexa e exige que diferentes experiências culturais sejam analisadas a partir de seus próprios contextos.
Nesse sentido, episódios como a história de Rayhana e al-Biruni ajudam a ampliar o debate sobre a relação entre mulheres e conhecimento no mundo islâmico medieval.
Mais do que alimentar uma disputa entre Oriente e Ocidente, revisitar esses episódios permite recuperar partes da história que muitas vezes permanecem desconhecidas e reconhecer a diversidade das experiências históricas relacionadas à educação e à participação intelectual das mulheres.
A história de Rayhana e Abu Rayhan al-Biruni, portanto, não deve ser vista apenas como uma curiosidade biográfica. Ela representa um episódio significativo da história intelectual iraniana e islâmica e convida a uma reflexão sobre a presença feminina no universo do conhecimento.
Ao recordar Abu Rayhan al-Biruni, é possível também recordar que a história das mulheres e da ciência é muito mais antiga e diversificada do que as narrativas simplificadas frequentemente apresentadas.
Fontes:
Pouran Farrokhzad, Karnameh-ye Zanan-e Kaar-e Iran (As mulheres atuantes do Irã, de ontem a hoje), Teerã, Nashr-e Qatreh, 1381, p. 395.
Jafar Aghayani Chavoshi, “Um livro para Rayhana”, entrevista publicada no suplemento Kheradnameh Hamshahri, nº 54, Tir de 1384.
Aqila Hussein, O papel das mulheres na construção da civilização.
Abdolrasoul Meshkat, Uma introdução ao pensamento contemporâneo, Nashr-e SAMT, 1390.
Susan Moller Okin, A mulher na perspectiva da filosofia política ocidental, tradução de N. Nourizad.
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